SAP S/4HANA: o risco de migrar o ERP e manter o problema intacto

*Por Omar Tabach

Existe uma armadilha perigosa ganhando força nas agendas de tecnologia: acreditar que migrar o ERP, por si só, significa fazer transformação digital. Não significa.

Temos acompanhado muitas migrações para SAP S/4HANA que costumam aparecer no discurso corporativo acompanhada de palavras sedutoras: cloud, automação, inteligência artificial, simplificação, eficiência e agilidade. Mas, na prática, muitas empresas correm o risco de apenas trocar o motor do carro sem rever o mapa, o motorista, os controles e a própria forma de tomar decisões.

O mercado também simplificou demais essa discussão. “RISE ou não RISE?”, “greenfield ou brownfield?”, “cloud ou on-premises?” viraram quase slogans do setor. A discussão é relevante, mas talvez esteja começando do ponto errado. A pergunta mais incômoda continua sendo: quais processos a organização está realmente disposta a redesenhar?

De acordo com a nossa pesquisa “ISG SAP Migration Study 2025”, a jornada para SAP S/4HANA está longe de seguir um único modelo. A maioria das organizações recorre a serviços profissionais da SAP para planejamento (68%), execução (59%) e suporte operacional (47%), enquanto os ambientes adotados variam entre RISE with SAP (28%), Private Cloud sem RISE (37%), Public Cloud sem RISE (23%) e estruturas on-premises (12%), mostrando que o mercado ainda busca diferentes caminhos para modernizar seus ERPs.

Os dados mostram que a migração de ERP está longe de ser apenas um projeto de infraestrutura. Trata-se de uma mudança operacional que exige preparação, gestão de risco e capacidade de decisão rápida. O problema é que muitas empresas continuam modernizando a tecnologia sem revisar processos, mantendo os mesmos silos, cadastros ruins, aprovações lentas e controles paralelos dentro de uma plataforma nova.

O orçamento reforça essa percepção. Segundo pesquisa da ISG sobre migração SAP, o investimento médio nesses projetos equivale a 1,62% da receita anual das organizações, com maior concentração de gastos em integração de sistemas, consultoria e serviços gerenciados. Já entre as empresas que enfrentaram atrasos ou estouros de orçamento, os principais problemas foram subestimação da complexidade do projeto, falhas de planejamento, integração com sistemas legados, mudanças de requisitos, restrição de recursos, baixa qualidade dos dados e dificuldades de gestão da mudança. A inteligência artificial aumenta a pressão sobre esse cenário, mas a IA aplicada sobre processos mal desenhados apenas acelera erros, gargalos e retrabalho (como vimos no passado na introdução de outras tecnologias).

Grande parte desses problemas surge antes do software, na preparação insuficiente, na baixa governança e na dificuldade de tomar decisões ao longo do projeto. A pergunta para CIOs, CFOs e CEOs acaba sendo direta: a empresa quer apenas migrar o ERP ou pretende revisar a forma como opera? Ou seja, quero apenas “me livrar” do problema do fim do suporte do ECC ou quero ter ROI com as novas tecnologias?

Se a intenção for apenas migrar, o projeto pode ser conduzido como uma troca tecnológica bem controlada. Mas, quando a ambição envolve transformação operacional, a conversa muda completamente.

A escolha do parceiro também deixa de ser apenas comercial. Consultorias e integradores precisam demonstrar capacidade de orientar decisões de negócio, antecipar riscos, lidar com ambientes legados, estruturar governança, apoiar a gestão da mudança e, preferencialmente, conhecer o segmento da indústria para traduzir tecnologia em valor mensurável.

A grande parcela das empresas no Brasil têm seus ERP com cerca de 20 anos de implantação, o negócio mudou muito, as demandas de processos mudaram muito, a aderência entre os sistemas e os processos diminuiu muito. A migração para SAP S/4HANA precisa ser encarada mais como um projeto operacional do que apenas tecnológico, já que o ERP acaba refletindo a maturidade da própria organização. Empresas com processos fragmentados, dados inconsistentes e baixa disciplina de gestão tendem a carregar esses problemas para a nova plataforma, muitas vezes com mais velocidade e custo. Por isso, os projetos mais bem-sucedidos não são necessariamente os que entram em produção no prazo, mas os que conseguem reduzir complexidade, aumentar transparência, melhorar a tomada de decisão e criar uma base consistente para automação e inteligência artificial.

Trocar o ERP costuma ser a parte mais simples da narrativa corporativa. O mais difícil continua sendo mudar a empresa.